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Casos de sucesso: Luís Onofre

“A indústria 4.0 é a chave para o futuro”

Luís Onofre não estava decidido a continuar o negócio da família, mas ver o primeiro sapato que criou, em veludo bordeaux e verde, levou-o a querer lançar a sua marca. Já calçou Letizia Ortiz, Michelle Obama ou Paris Hilton, tem loja online e duas lojas em Lisboa e no Porto. Quer crescer no comércio eletrónico e agora tem pela frente um novo desafio, a presidência da Confederação Europeia de Calçado.

Na fábrica de Luís Onofre, em Oliveira de Azeméis, cruzam-se o trabalho, o charme e a história. Há o espaço de produção onde 60 trabalhadores fabricam cada modelo, das botas glamorosas aos sofisticados saltos altos. Há o showroom que é sala de visitas, onde os olhos vagueiam entre sapatos e malas de luxo. E há também a velha mota estacionada, recuperada como se tivesse sido fabricada hoje. Era a mota que o pai de Luís, Jorge Onofre, usava para distribuir os sapatos pelos clientes quando a empresa era muito pequena e os clientes moravam nos arredores.

Muita coisa mudou desde então, e hoje os sapatos de Luís Onofre já chegaram a Espanha, França, Itália, Estados Unidos, Rússia, África do Sul, Qatar ou Japão. Passaram muitas décadas desde que o avô de Luís Onofre, chegado do Brasil, decidiu estabelecer-se em Oliveira de Azeméis e montar uma empresa de calçado. Fundou-a em 1937, mas viria a morrer um ano depois e foi a avó de Luís Onofre, Conceição Rosa Pereira, que ficou à frente da empresa. Fabricava dois ou três pares de sapatos por semana, mas nunca desistiu e acabou por deixar a empresa ao filho, o pai de Luís Onofre.

Jorge Onofre deu o passo seguinte e começou o processo de internacionalização. Fez parcerias com as Galerias Lafayette e marcas como a Cacharel ou a Daniel Hechter, conseguiu vários clientes em França. A empresa crescia e chegava a lugares onde já não dava para ir de mota.

A história do apelido Onofre ligado ao calçado poderia ter acabado aí. Luís já tem dito em entrevistas que era “um bocado destravado” e que foi por isso que o pai o pôs a trabalhar. Para além disso, crescera entre sapatos e os seus interesses voltavam-se para outros sonhos. Queria ser arquiteto ou designer de interiores, não sabia bem. Mas quando acabou o ensino secundário o pai acabou por convencê-lo a dedicar-se também ao calçado.

Luís Onofre lembra-se bem do dia e do local onde isso aconteceu, já tem contado essa história diversas vezes. Foi numa cabine telefónica da Costa da Caparica, no Verão de 1989. De férias em casa de um primo, telefonou para a família e acabou por ter uma longa conversa com o pai, interrompida a determinada altura pela falta de moedas. Voltou a casa para ir buscá-las, a conversa continuou e, no final, Luís Onofre estava mais ou menos convencido. Iria experimentar os sapatos. Mas só quando pegou no primeiro modelo criado por si, em veludo bordeaux e verde, é que decidiu que aquela iria ser a sua vida. Tinha 19 anos.

Alguns anos depois, em 1993, lançou a sua primeira coleção, com 10 ou 12 modelos, mas esta não teve o sucesso que esperava. Empenhou-se em aperfeiçoar os sapatos e, poucos anos depois, estava de regresso ao palco das feiras internacionais do setor.

“Em 1999 fizemos a primeira apresentação numa feira de moda e calçado de Madrid e, no ano seguinte, fomos para a maior feira do setor, que é a MICAM, em Milão. A partir daí fomos conhecendo alguns agentes comerciais em cada país, que íamos contactando, e as coisas foram surgindo naturalmente”, diz Luís Onofre.

A internacionalização começou pela Europa mas a marca Luís Onofre não demorou a chegar a mercados mais distantes. “Houve um incremento muito grande em Espanha, a partir daí passámos para França, daí para a Itália, depois para a Grécia”, recorda Luís Onofre, que a partir de 2010 começou a investir também em mercados de outros continentes, nomeadamente Estados Unidos e países asiáticos. Há pouco tempo os sapatos Luís Onofre passaram a ser vendidos na China, onde a rede de clientes é já “muito interessante, embora ainda pequena para a dimensão do país mas com bons indicadores para o futuro”.

Atualmente Luís Onofre procura delinear uma estratégia para os tempos que antevê difíceis, não só para a sua empresa mas para todo o setor do calçado. A sua previsão aponta para uma “tempestade” perfeita que junta vários obstáculos. “São tanto os problemas que se aglomeraram em pouco tempo que isso pode ser complicado nos próximos dois ou três anos. O Brexit, a crise espanhola, a crise em França com os coletes amarelos, a Alemanha com a sua economia a cair, a crise e o protecionismo entre a China e os Estados Unidos, o comércio online que para nós ainda é uma incógnita, embora saibamos que é o futuro. Enfim, são tantas as coisas que me levam a crer que vai ser um tempo bastante complexo.”

De uma coisa Luís Onofre tem a certeza, quaisquer que sejam as soluções encontradas elas passarão sobretudo pelo digital e o comércio eletrónico.

“A indústria 4.0 é a chave para o futuro. As tecnologias e as novas formas de pensar são a solução para as empresas. E, se não avançarmos por aí, provavelmente mesmo quem faça grandes produtos e coisas muito diferentes acabará por se perder num universo de informação global, com tantas marcas e tantas coisas que circulam à nossa volta num telemóvel ou num tablet”.

Embora considere que o e-commerce é o futuro, Luís Onofre não deixa de sublinhar algumas incertezas. “É sempre uma incógnita saber qual será o mercado potencial para os nossos produtos. Neste momento, por aquilo que temos vindo a observar, nomeadamente nas lojas físicas que temos no Porto e em Lisboa, os Estados Unidos e França serão o mercado-alvo para a marca Luís Onofre”, adianta. Por outro lado, diz, a promoção num mercado externo tem custos e deve ser ponderada. “Temos de investir muito dinheiro de cada vez que é preciso promover a marca a nível internacional. É preciso estar com os pés bem assentes na terra antes de avançar para a descoberta de um novo mercado.”

No online pode-se gastar milhares ou milhões, sublinha. “Se forem mal aplicados é dinheiro que esvoaça e desaparece sem darmos por ele. Portanto, o online é uma ferramenta fantástica mas pode ser problemática se não for usada devidamente. Há que fiscalizar os investimentos para que sejam seguros”.

 

“AICEP tem sido uma ajuda preciosa”

Num momento que considera complexo para a indústria do calçado, Luís Onofre sublinha a importância dos apoios e parcerias. A AICEP, diz, tem sido “uma ajuda preciosa nos mercados externos, um auxílio quando necessitamos de algo fundamental ou alguma informação mais específica de cada país”. Como exemplo, refere informações sobre potenciais clientes ou o gosto dos consumidores. “A partir daí, podemos programar também a coleção em conformidade. Nesse campo, a AICEP faz um trabalho excecional, que é dar-nos informações precisas sobre players em determinado mercado onde podemos atuar e, depois, colocar os agentes comerciais em campo.”

Nomeado recentemente presidente da Confederação Europeia de Calçado, Luís Onofre encara esse desafio com otimismo, mas também com alguma apreensão quanto à evolução económica e às oportunidades para as empresas de calçado. “A Europa está a atravessar uma crise e tem que haver um comércio justo ao nível mundial, o que neste momento não está a acontecer”, diz. E dá exemplos: “O meu produto, ao entrar na China, paga taxas alfandegárias brutais, ao contrário do que que acontece com a China, que paga entre 10 a 20 por cento de taxas na Europa. Para o Brasil é quase impensável, porque temos barreiras alfandegárias brutais, ao contrário do que acontece quando o Brasil quer exportar as suas coisas para a Europa”.

Para o recém-nomeado presidente da Confederação Europeia de Calçado, essa situação pode ser um entrava à competitividade das empresas europeias do setor. “É esse o nosso receio quanto ao futuro da indústria”. A solução, sublinha, não passará pelo protecionismo, mas por negociações com outros países para que haja equidade nas transações.

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