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Casos de sucesso: Kyaia

Fortunato Frederico, fundador da Kyaia: “A AICEP é o primo que a gente tem espalhado pelo mundo”.

Aos 14 anos Fortunato Frederico trabalhava numa empresa de calçado de Guimarães e já sonhava ter uma fábrica. Hoje tem a Kyaia, dona da marca Fly London, que emprega 600 pessoas, fatura mais de 60 milhões de euros e vende para mais de 40 países. “A gente vai crescendo e vai sonhando”, diz. Assim tem sido.

A Kyaia tem vários berços. Nasceu naquela conversa em que o miúdo Fortunato, de 14 anos, se voltou para o patrão na empresa de calçado Campeão Português e disse que queria ter uma fábrica como a dele. Nasceu também, anos depois, quando o militar Fortunato Frederico, mobilizado para Angola, aproveitava as noites na pequena localidade de Kyaia para planear o futuro, nos dias em que pensar era uma forma de afastar a guerra. E nasceu mais um pouco no dia em que o senhor Fortunato Frederico, empresário do calçado, se apaixonou por uma mosca numa feira na Alemanha e acabou a lançar a marca Fly London.

Nos papéis a Kyaia nasceu em 1984, mas na cabeça de Fortunato Frederico já existia desde a década de 1960. “Era um sonho antigo que tinha, desde miúdo, quando comecei a trabalhar na Campeão Português aos 14 anos. A gente vai crescendo e vai sonhando, e eu tinha a aspiração de também ter uma fábrica”, recorda.

Para trás ficavam os anos no seminário, onde estudou até ao 8º ano. Fortunato Frederico era ainda bebé quando ficou órfão de pai e acabou por ser educado numa creche católica e no seminário. Ganhou o gosto pela leitura, embora não tanto pela vida eclesiástica. Era “um bocado malandro”, disse numa entrevista ao Jornal de Negócios. Havia as moças, um ou outro cigarro, e tudo isso levou a que um dia lhe dissessem que não tinha vocação. Perdeu-se um padre ganhou-se um empresário.

Ir trabalhar para a fábrica Campeão Português “foi uma sorte”, diz. “Tive um patrão que era um homem excecional, o comendador Domingos Torcato Ribeiro, que nos incentivava a sermos mais alguma coisa. Uma vez disse-lhe que gostava de ser como ele, de ter uma fábrica como a dele”. O patrão era um homem muito alto e a sua resposta ficou-lhe na memória até hoje: “Como eu não vais ser, porque és de raça pequena, mas a fábrica podes ter. Se trabalhares para isso, podes ter”.

O trabalho na Campeão Português acabou por ser interrompido pelo serviço militar, numa altura em que poucos rapazes escapavam à mobilização para a guerra colonial. Fortunato Frederico não foi exceção e a sua fábrica viria a ter o nome da localidade angolana onde esteve, e de onde guarda boas memórias: Kyaia. “Foi lá que pensei no futuro, tinha tempo para isso.”

A ideia da fábrica foi ganhando forma. Fortunato Frederico voltou de Angola, foi refazendo a sua vida até que, já em 1984, tinha finalmente chegado o momento de fundar a sua empresa de calçado. Convidou Amílcar Monteiro, hoje seu sócio mas naquela altura “um rapaz novo, pronto para viajar”. Disse-lhe isso mesmo: “Tens de te preparar para ir tomar café a Londres, porque é assim que se vende”. Os dois ergueram a Kyaia.

O caminho não se fez sem sobressaltos, e o primeiro foi a falta de mão-de-obra para trabalhar em Guimarães, numa altura em que vários grupos estrangeiros, mais fortes e com maior capacidade financeira, estavam a recrutar naquela região. “Nós rapidamente ficávamos sem pessoal. Formávamo-los e depois eles saíam”, recorda Fortunato Frederico. Mais voltado para as soluções do que para o conformismo, pôs-se no carro e foi à procura de alternativas a alguns quilómetros dali. Bateu à porta do presidente da Câmara de Paredes de Coura, já no distrito de Viana do Castelo, e pediu-lhe um terreno em troca da criação de 40 postos de trabalho.

“Pedi-lhe para me reservar 60 mil metros quadrados e ele perguntou-me se eu ia lá para lavrador ou para fazer a fábrica”, recorda Fortunato Frederico. “Disse-lhe que ia fazer a fábrica, mas não com o intuito de estar ali meia dúzia de anos e depois sair. Era para ficar e crescer. Portanto, se não me reservasse o terreno todo, depois ia ter que ter uma fábrica aqui e outra acolá”. Hoje o terreno está quase todo ocupado por quatro unidades de produção onde trabalham 220 pessoas, e a pequena parcela ainda vazia já está destinada para mais um pavilhão, planeado para 2025. É lá que está boa parte da produção, enquanto em Penselo, Guimarães, está hoje a sede da empresa e toda a parte administrativa, financeira, a restante produção e o design.

“O mercado interno não é representativo, o país é pequeno”

Desde o início que a Kyaia teve como principal objetivo a exportação. “O mercado interno não é representativo, o país é pequeno”, diz Fortunato Frederico. A primeira encomenda teve como destino a Inglaterra. “Foi sempre o nosso mercado de preferência”. 

A estratégia de internacionalização da Kyaia começou também pela participação em várias feiras, e foi aí que surgiram outros clientes. No Japão, por exemplo, a empresa chegou a ter um cliente importante que acabou por não resistir a uma crise. Seguiu-se Itália, depois França. “Crescemos, mais ou menos, dois ou três países por ano”, adianta Fortunato Frederico. Atualmente já estão em mais de 60 países.

A empresa começou então a procurar agentes que a representassem. “Ainda hoje temos uma grande rede de agentes que vão às lojas, vendem, e nós faturamos diretamente”, explica Fortunato Frederico. Todos os anos esses agentes, entre 60 a 70 pessoas, vêm a Portugal para assistir ao lançamento das novas coleções.

A Kyaia cresceu e internacionalizou-se rapidamente, mas Fortunato Frederico também recorda alguns percalços, como o dia em que um cliente francês conseguiu ficar com a mercadoria sem pagar. “Por norma, não sai da nossa empresa qualquer sapato cujo pagamento não esteja garantido por carta de crédito, seguro ou pagamento antecipado. A esse cliente disse-lhe que não levantaria a mercadoria sem a pagar. Mandámos os sapatos só que ele não nos informou que, dentro das suas instalações, tinha um posto de desalfandegamento”, conta Fortunato Frederico. O cliente acabou por entregar a mercadoria a si próprio e não pagou. “Foi o único. De resto, nunca tivemos grandes dissabores.”

As exportações para a Inglaterra também obrigavam a Kyaia a adaptar o seu produto. No mercado britânico faziam sucesso sapatos mais alegre, voltados para o conforto e para os jovens, de cores que não eram tão habituais em Portugal. E por diversas vezes Fortunato Frederico deparou-se com esses sapatos nas lojas britânicas a um preço muito mais elevado do que aquele pelo qual tinha vendido. “Para nós o sapato saía a 15 libras e depois estava nas lojas a 60, 65 libras. Perguntei-me: Como é que pode ser?” A resposta estava naquilo que ainda faltava à Kyaia: uma marca própria.

                                                                                              

Um acaso chamado Fly London

A primeira tentativa de criar uma marca não correu bem. O símbolo da empresa é um círculo negro com as letras Kyaia a rompê-lo. Foi criado nos anos 80, numa altura em que Portugal estava sujeito à intervenção externa e em que diziam a Fortunato Frederico que as empresas de calçado não tinham futuro. “Eu não sabia fazer mais nada senão sapatos e não tinha futuro?! A minha vida tinha sido toda passada nos sapatos”, diz Fortunato Frederico.

Só que Kyaia não era um nome que fizesse lembrar sapatos. Até que, numa feira em Dusseldorf na Alemanha, deparou-se com um stand vazio e a imagem de uma mosca e, por debaixo, o nome Fly London. Achou bonito e resolveu investigar o que se passava com aquela marca que viria a ter como slogan “Don’t walk, Fly”, o que já se adequa muito mais a sapatos.

“Era um projeto de dois ingleses, mas eles zangaram-se a caminho da feira e nós fomos à procura deles para lhes comprar o projeto. Fomos ter com eles ao hotel, dissemos que estávamos interessados em comprar aquilo, que era uma coisa bonita de que nós gostávamos. E eles venderam. Deixámos de fazer sapatos com a marca Kyaia e passámos a fazer sapatos com a marca Fly London”, recorda Fortunato Frederico.

O sucesso em Inglaterra foi quase imediato, mas só cinco anos depois é que a marca passou a ser vendida em Portugal. “A dimensão do país é reduzida e quem quiser crescer tem que procurar grandes mercados. Era mais difícil vender 2000 pares em Portugal do que 10 ou 15 mil pares na Inglaterra, porque lá tinham capacidade e massa crítica para comprar os sapatos”, sublinha o fundador da Kyaia.

Outra preocupação da empresa foi encontrar parceiros fiáveis para lhe fornecer as peles para os sapatos. E como em Portugal o preço era elevado, a Kyaia acabou por estabelecer uma parceria com uma empresa do Paquistão que encontrou numa feira em Paris. Com o passar do tempo e as mudanças no mercado foram sendo encontrados outros fornecedores de matéria-prima na Índia, na China ou na Europa de Leste.

O objetivo da empresa era ter a maior independência possível, por isso foi instalada uma fábrica de solas, uma de palmilhas e outra de plantares, de forma a conseguir produzir tudo o que faz parte do sapato. Ao mesmo tempo a Kyaia procurou diversificar o negócio. Continuou a produzir para a marca Camel em regime de subcontratação, investiu também no turismo e criou uma empresa de desenvolvimento de software, em parceria com o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores Tecnologia e Ciência do Porto INESC-TEC, que já vendeu as suas soluções para algumas empresas.

Estávamos ainda em 2005 quando o grupo adquiriu as lojas e a marca Foreva. “Reconheço que não foi uma boa aposta”, confessa Fortunato Frederico. Com a intervenção da troika as coisas complicaram-se, e os três milhões que a empresa faturava no mercado interno passaram para 700 mil euros. “Foi sempre a baixar. Foi um mau passo. Fizemos um esforço muito grande para aguentar as lojas todas naqueles anos porque havia muito desemprego e nós não queríamos contribuir para mais desemprego, mas quando a situação começou a melhorar começámos a racionalizar e a fechar lojas”, lamenta o fundador da Kyaia.

Seguiu-se o lançamento dos sapatos de conforto Softinos e das chinelas de enfiar no dedo As Portuguesas, em resultado de uma parceria com a corticeira Amorim. E no ano passado foi inaugurado o markerplace digital Overcube, onde são vendidas mais de 30 marcas, nacionais e estrangeiras. “Está a crescer bem, embora seja um sorvedouro de dinheiro”, diz Fortunato Frederico, que aborda as dores de crescimento do negócio com uma simplicidade desarmante.

Um próximo passo será exatamente o lançamento da coleção Overcube que, garante o fundador da Kyaia, vai ter modelos para todos os gosto. “Só não vamos fazer aquele sapato chique das senhoras. Mas sapato de conforto, alegre e jovem, lá isso temos”.

Desde a Campeão Português ao grupo Kyaia, Fortunato Frederico conheceu uma parte importante da história do calçado português, escreveu ele próprio algumas páginas. Destaca, por exemplo, as políticas públicas que ajudaram o setor a passar de uma indústria artesanal, “que não tinha futuro”, para uma indústria que se modernizou e afirmou. E nesta caminhada destaca também o apoio da AICEP. “É o primo que a gente tem espalhado pelo mundo, que nos dá uma ajuda sempre que precisamos de alguma coisa.”

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